Michelle Obama: ‘Até hoje me pergunto se sou boa o suficiente

Escrito por em 04/12/2018

LONDRES – A ex-primeira-dama dos EUA Michelle Obama retornou a Londres — uma cidade que a marcou no primeiro mandato de seu marido — para lançar seu livro de memórias “Minha história” (ed. Companhia das Letras), best-seller instantâneo que já vendeu dois milhões de cópias nos EUA e no Canadá. Recebida por uma plateia eufórica de milhares de pessoas que a aplaudiram de pé num auditório lotado, ela mostrou que seu poder hoje extrapola as fronteiras da política americana. Michelle virou uma celebridade global.

Entrevistada pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, uma referência feminista, autora de “Meio sol amarelo” e “Americanah”, a ex-primeira-dama brincou com o público, fez piadas sobre casamento, emocionou-se ao falar do pai, morto aos 55 anos, e relembrou um encontro hilário com a rainha Elizabeth II, por quem ela e o ex-presidente Barack Obama têm um imenso afeto.

Livre das amarras dos protocolos oficiais, ela falou principalmente sobre como mulheres negras acabam se sentindo diminuídas por círculos de poder que não querem sua ascensão e sobre a pressão que carregou por ter sido a primeira afro-americana a morar na Casa Branca. A principal mensagem do livro é sobre o poder da educação.

— As pessoas tentam tirar nossa voz, nos demonizam como “furiosas” e “barulhentas”. Fui atacada por ousar ter uma voz e, muitas vezes, as críticas vieram das próprias mulheres — declarou, dando um recado a jovens mulheres negras e levando a plateia ao delírio: — Estive em todos os centros de poder que vocês possam imaginar e posso dizer-lhes que essas pessoas não são todas tão espertas assim.

O encontro com Chimamanda é parte da turnê de lançamento de “Minha história”. Na capital britânica, o frio e a chuva não impediram que o público começasse a formar filas desde cedo às portas do Royal Festival Hall, onde a procura por ingressos foi 500 vezes maior que o número de lugares à venda. A plateia era majoritariamente feminina.

Centenas de crianças de escolas públicas de Londres, guiadas por professores, chamavam a atenção pela diversidade e pela alegria, como quem estava prestes a ver um show de rock. Antes da entrevista, Michelle visitou uma escola de meninas que conhecera há nove anos e que nunca esqueceu. Ela contou como foi, ao longo da vida de estudante, subestimada por professores, tendo que provar sua capacidade de forma exaustiva.

— Até hoje continuo me perguntando se sou boa o suficiente. O primeiro passo é a gente matar esse dragão dentro da nossa mente. Para isso as meninas precisam de educação — disse ela na conversa com Chimamanda, lembrando que sempre haverá alguém para dizer que você não é bonita e que seu cabelo é feio.

No livro, ela diz não ser uma fã de política e insiste em afirmar que não há chances de ser candidata em 2020. Em Londres, não mencionou planos políticos.

— Primeiro preciso me dedicar à turnê do livro e depois quero entender as reações das pessoas, principalmente dos leitores mais jovens. Posso aprender algo com eles para poder decidir o que farei depois — disse, definindo-se como uma pessoa ainda em transformação.

“Minha história” tem apelo como uma mensagem de esperança em tempos de ódio. De forma sincera, Michelle relembra a infância no lado pobre de Chicago, onde cresceu protegida por pais amorosos e resilientes, que investiram tudo o que tinham na educação dos dois filhos.

Ela frequentou uma das melhores escolas públicas da cidade, formou-se em Sociologia na Universidade de Princeton e Direito em Harvard. Foi muito além do que as gerações mais velhas de sua família, um clã formado por uma grande quantidade de tios e primos carinhosos, barulhentos e presos a trabalhos aquém de sua capacidade por causa da cor de sua pele. Mas não foi fácil.

“Era impossível ser uma estudante negra de uma faculdade de maioria branca e não sentir a sombra da ação afirmativa. Eu quase conseguia ver o escrutínio no olhar de certos estudantes e até de certos professores, como se quisessem dizer: Eu sei por que você está aqui”, escreve.

O Globo


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